Nina. Me pergunto se a melhor coisa que eu posso te oferecer agora não é um sincero pedido de desculpas. Desculpas por ter começado te tirando da tua homeostase, do teu ambiente natural, da tua mãe (que até então te amamentava), dos teus irmãos, da tua antiga dona - que chegou a chorar quando tirei a “Bolinha” de lá. Imaginei que tu sentia falta deles durante todas as vezes em que, te assistindo dormir no meu colo, tu fazia movimentos de sucção com a boca, e tuas patinhas simulavam tocar o peito da tua mamãe; nas vezes em que tu te recusou a comer a ração simplesmente por nunca ter visto aquilo na vida; ou quando tu miava triste durante as primeiras noites que passou aqui. Imaginei que aquela mudança toda te assustava, começando pela viagem de carro até a minha casa, em que tu chorou durante o trajeto todo. Chegando lá ainda, quatro humanos não tiravam os olhos de ti, não descansavam de te agarrar, enquanto tu tentava explorar receosa teu novo território, no auge dos teus 20cm e 600g.
Tenho o dever de te pedir desculpas também por cada vez em que te deixei sozinha. Não foi muito difícil, nem demorado, perceber o quanto tu evitava essa situação e sofria quando acontecia. Eu achava um amor aquele bichinho que cabia na minha mão me seguindo em qualquer lugar que eu fosse pela casa, inclusive quando eu caminhava dentro de um mesmo cômodo; que queria estar comigo até quando eu ia tomar banho; que “fazia festa”, à sua maneira, quando me via. Mas não deixei de viver minha vida por ti, Nina, enquanto te privava da tua por mim. Nos primeiros dias te fiz companhia na sala, neguei saídas pra cuidar do teu sono; nos próximos, te deixava aos cuidados dos meus pais - e, assim, catalizei nossa despedida -; e cheguei inclusive a viajar sem ti, algo que tu dificilmente esqueceu, a julgar pelas tuas feridas de estresse, tuas tremedeiras quando voltamos, pela comida intocada.
Desculpas por ter perdido a paciência contigo algumas vezes. É verdade que tu queria subir na mesa enquanto comíamos, que tu vomitou no sofá, que tu quase derrubou a árvore de natal - eis que eu acordo 7h da manhã com várias bolinhas caindo no chão e a imobilidade de quem sabe que fez coisa errada -, que tu surtou quando fomos no veterinário, que tu me mordeu e me arranhou incontáveis vezes, que tu resolvia te posicionar exatamente onde nossos pés intencionavam pisar, que tu faz cocô, ou que inconvenientemente tentava entrar nos quartos. Mas é verdade também que tu é uma filhotinha de gato, e portanto se supera em curiosidade, em atrevimento, em orgulho, e tem seus fatores fisiológicos. Nunca tive o direito de, tendo consciencia do que tu é, te exigir um comportamento diferente, no entanto, te assustava batendo com o jornal nas cadeiras, gritava, te deixava fechada no pátio, lutava contra tua natureza.
E me desculpa por não ter te salvado daquela caixa, Nina. Me senti obrigada a assistir teu pavor, tuas tentativas de me enxergar pelas frestas, de sair por elas e a sorrir praquela estranha, tua nova dona, que alegava “não gostar de gatos” enquanto balançava a tua caixa, pela minha necessidade de desfazer o terror que a minha vida se transformou desde que eu mudei a tua e pela tentativa de dar uma chance a vocês.
Sempre me perguntei se no fundo tu gostava de estar aqui, se de alguma forma tinha valido a pena todos os desfavores que te fiz, mas como expus aqui, minha perspectiva não é nada boa. Meu maior pedido de desculpas é por ter sido inconsequente, egoísta, carente, egocêntrica, soberba, irresponsável, e por ter deixado todas esses meus defeitos caírem sobre ti, graças à minha incapacidade de depositar um afeto em pessoas e posterior resolução de te usar pra suprir essa carência minha.
Ao mesmo tempo - não por consolo, mas por sincera declaração -, quero que saiba que te tirei do teu hábitat porque fiquei sabendo que o cachorro que morava contigo machucava os muitos filhotes que a Beth abrigava, e que ela própria queria se livrar deles. Sempre tive a vontade de ter um bichinho de estimação, que, em dezembro, foi exacerbada por talvez questões hormonais e por toda minha a falta de responsabilidade. Planejei tua vinda por cerca de duas semanas, arquitetei tua estadia, até que, assim que minhas férias começaram, te visitei e nos conhecemos. Eu, que fui destinada a adotar teu irmão, me apaixonei pela Bolinha, que de primeira, se aninhou no meu colo desconhecido e dormiu.
Fica sabendo, além disso, que meu janeiro, em maioria, valeu a pena por ter te feito dormir, por brincar contigo e por ter te assistido brincar com os objetos mais inusitados possíveis. Foi engraçado gastar R$ 10,00 em um brinquedo que tu olhou, cheirou, desviou e nunca mais deu atenção, preterindo-o a papeis de bombom. Valeu a pena por ter imaginado tua anatomia enquanto te fazia carinho, sentindo tuas costelinhas frégeis, apalpando órgãos internos. Valeu por ter te dado banho só por assistir aquela carinha molhada de “porquê, mamãe?” e ter sentido teu cheirinho de gato limpo depois. Por ter te admirado pulando pela casa, brincado de esconder contigo, te alimentado, ouvido tuas conversas, sentido teu pelo fininho e macio no meu rosto, teu calorzinho descansando na minha barriga.
Não que eu tenha a pretensão de diminuir meus erros com isso, mas é importante ressaltar que não consigo parar de imaginar a cena que teu novo pai descreveu: tu, em pânico pelo carro, tentando sair desesperadamente da caixa, até que tua “mãe” surta, e chorando te deixa escapar. Não consigo parar de imaginar tua chegada na casa nova, assustada; a tua primeira noite aí, miando de saudade da nossa família; o teu relacionamento com o outro gato, arisco; a mulher se estressando contigo. Que o remorso não acabe comigo. Sem me fazer de vítima, temo quantos pesadelos vou ter pensando nisso.
De tudo isso, o que resta é o meu arrependimento por ter causado essa situação a todos nós e o pesar por não te ver crescer, por não te ter comigo; mas ainda, resta todo o carinho que sinto e sempre sentirei por ti, as boas lembranças que guardo e o desejo de que, apesar de tudo, tu ainda consiga lembrar da tua ‘mamãe Gab’ e dos momentos bons que passamos juntas, com tanto afeto quanto te seja possível.